Receber notificações
  Facebook
  RSS
  Whatsapp

O MAIOR SEI NÃO DO MUNDO. Por; Rogério Newton

Foto: reprodução Rogério Newton

 Foto: reprodução Rogério Newton

Em 1987, conheci Campina Grande e seu São João. A rua onde aportei, no bairro Liberdade – e fico até hoje quando venho a esta cidade, -estava cheia de fogueiras em frente às residências, onde famílias celebravam, brincavam, dançavam, cantavam, comiam, soltavam fogos e se divertiam. O céu estava cheio de balões. Uma vibração contagiante permeava tudo. Havia quadrilhas nos bairros, arraiais nos sítios, trios de forrós em muitos lugares. O rádio e a tv exultavam, teciam loas ao prefeito, ao Maior São João do Mundo, ao Parque o Povo e à Maior Casa de Show da América Latina, criados havia pouco tempo.

Desde o início, esse São João foi – e ainda é - um projeto político e econômico que se apropriou da mais pujante manifestação comunitária da cidade e a transformou em um megaevento ufano-mercantilista, marcado por massiva propaganda e estratégias de marketing.

Ano após ano, a apropriação política e econômica da festa popular do São João em Campina Grande implicou em verdadeira “invasão” de “elementos estranhos” àquela manifestação cultural, até então caracterizada por um conjunto de componentes que lhe conferiam originalidade e identificação com uma cultura tradicional bastante influenciada pelo meio rural e das pequenas cidades.

Geralmente, é em torno da música que se diz gravitar as principais características da tradição imemorial do São João. Gêneros como baião, xote, xaxado, e instrumentos musicais como sanfona, pandeiro, triângulo e pandeiro, e cantores como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, são os mais lembrados. Mas o fenômeno cultural das festas juninas tem sua complexidade e abrange número significativo de elementos integrados, que vão desde a culinária, danças, costumes, vestimentas, atividades vinculadas ao cultivo da terra e à criação de animaisaté a tradições existentes desde antes da era cristã e a elementos religiosos relacionados ao nascimento de São João Batista.

A festa de São João possui uma complexidade cultural e está arraigada nos modos de viver e de sentir de uma ampla região do Brasil, especialmente o Nordeste. O São João tem a ver com o que muitos chamam “identidade nordestina”, ou com a “invenção do Nordeste”, como a designou o estudioso Durval Muniz de Albuquerque Junior.

A introdução de “elementos estranhos”nas chamadas manifestações culturais “de raiz”, advindos do crescimento das cidades, da expansão da ciência e da tecnologia e do desenvolvimento da economia, já foi objeto de várias abordagens. Não queremos aqui botar mais lenha na fogueira, mas lembramos que esse aspecto é fundamental na nossa tentativa de análise da situação a que chegou o São João em Campina Grande.

A influência das modernidades é um fato. As transformações adquiridas (ou impostas) pela atual festa em Campina Grande são resultado de um projeto político e econômico calculado, que em 2025 alcançou um nível de mercantilização nunca dantes visto.

Desde que a propaganda massiva denominou a festa de “maior do mundo”, deixou a senha não para passar a boiada, mas o trator capitalista, onde não cabem simplicidade, espontaneidade e beleza, que fazem o encanto de qualquer festejo popular existente no Brasil. O São João em Campina Grande deixou de ser uma festa popular de alta significação e se transformou em mercadoria. É assunto mais para negociantes sem escrúpulos e políticos do que para o povo que a criou e, de certa forma, ainda a salva.

Uma visita ao Parque do Povo (nome que não faz mais sentido) é suficiente para se perceber que é um grande shopping center a céu aberto, onde os espaços privilegiados são ocupados por empresas milionárias. Elas, com logomarcas iluminadas, outdoors, neons, designsde linhas retas, constituem em forma o que o empreendimento é em filosofia: um grande e asséptico mercado, não o território de uma expressão popular importante para a coletividade.

Aqui e ali veem-se as chamadas “ilhas de forró”, pequenos espaços para os trios de sanfona, triângulo e zabumba. O nome não podia ser mais apropriado: são ilhas sufocadas por um oceano de lojas iluminadas. Em frente à 7K, do jogador Hulk, pessoas numa fila quilométrica. Esperam receber uma lembrancinha. Em troca deixam seus dados para logo mais passarem a receber propagandas no celular.

No palco gigantesco, um cantor destila sofrência e piseiro em tal volume que se torna impossível conversar, a não ser aos gritos. O alto volume também sufoca os sons vindos dos poucos trios forrozeiros. No grande salão da “pirâmide” não há pares dançando, apesar de um cantor em estilo indefinível estar ocupar o palco. A pista de dança está interditada por grades de metal.

Fácil notar que o povo e a festa junina não são mais protagonistas no Parque do Povo. Quando muito, são apenas coadjuvantes de um circo eletrônico em que imperam os interesses das empresas que ali aportaram para ganhar dinheiro. Para isso, sacrificam sem piedade a manifestação coletiva do São João. Desfiguram-na, sugam sua vitalidade, transformam a festa em mercadoria higienizada e os brincantes juninos em consumidores. Diga-se: só consumidores que podem pagar. É proibido entrar no Parque do Povo com um mísero copinho plástico de água. Uma moça foi barrada porque comia uma espiga de milho comprada numa barraquinha do lado de fora.

Não há povo no Parque do Povo. O Maior São do Mundo não é para ele. É uma festa da classe média para cima, protagonizada com dinheiro público e por empresas. As minissaias pretas, as botas gaúchas, os chapéus texanos com logomarcas e o mau gosto por músicas de péssima qualidade sugerem que o público preferencial do Maior São João do Mundo é a multidão anestesiada e acrítica. Parafraseando Machado de Assis, esse São João da prefeitura e das empresas milionárias é caricato e burlesco. A voracidade neoliberal e política está executando a sentença de morte do São João em Campina Grande.

 

Rogério Newton é escritor

Mais de Entretenimento