Estou em dúvida se uso neste texto a argumentação lógica ou o tom da conversa. É que vi pessoas andando na avenida próxima ao Morro do Leme. Devem ser uns trezentos metros de asfalto. As pessoas vão e vem, caminhando, conversando. Estão praticando exercícios físicos, e isso é bom.
Ao lado da avenida, há um loteamento. Construções estão sendo feitas, entre as quais, uma igreja evangélica, cuja área edificada por pouco não subiu no Morro do Leme. Há também um posto de combustível. O odor de gasolina, levado pelo vento morno, chega à santa imóvel, na parte mais alta da elevação.
Tudo isso era uma área verde, hoje inteiramente devassada. Até aí tudo bem, tudo muito normal. É natural empreendedores derrubarem árvores, administradores abrirem avenidas, para construírem o que chamam de progresso, em que é também muito natural a terra ser transformada em mercadoria. O que ganhamos com isso? Negócios, mais uma igreja, autos circulando por ali e uma nesga de asfalto servindo de área de lazer.
O que perdemos? Árvores, pássaros, ar puro, umidade, a beleza do Morro do Leme, sufocado pelas edificações. Perdemos a possibilidade de existir ali um pequeno parque com árvores, que seria um lugar mais adequado para caminhadas. Isso, porém, em Oeiras, é uma coisa completamente fora de cogitação, não de hoje, mas, podemos dizer, desde que a cidade é cidade.
Por que isso acontece? Por que é uma tendência aparentemente irreversível? Tenho uma tese: isso ocorre porque todos nós em Oeiras somos adeptos de uma religião chamada capitalismo. Deve haver exceções, o que se compara com uma pequena libélula no lombo de um leão.
Como todas as religiões, o capitalismo tem suas regras, suas leis, sua bíblia, suas deusas e deuses, suas sacerdotisas e sacerdotes, seus sacrifícios, seus defensores, seus rituais, suas promessas, seus castigos, suas utopias, seus pecados, seus dogmas, seus templos e... seus seguidores e seguidoras.
Os deuses do capitalismo são dinheiro e propriedade. E um deus com a mão invisível que conduz a todos: o mercado. Como em toda religião, esses deuses têm defensores intransigentes, não admitem questionamentos. É assim porque tem que ser assim. Vivemos no melhor dos mundos possíveis.
Há uma dimensão no capitalismo, nem sempre lembrada, que pressupõe a existência de um sistema de pensamento, não só uma teoria ou teorias e seus gurus, mas também formas de pensar e de sentir nas mentes e nos desejos dos que, inconscientemente ou não, rezam em sua bíblia.
Falando sobre a atual fase do capitalismo, Marilena Chauí lembra que o neoliberalismo é uma forma de sua atualização. Tem o viés econômico, mas também é um projeto autoritário, que impõe regras, procedimentos, até gostos a todos. Isso quer dizer que são condições indispensáveis do capitalismo: desenvolvimento a qualquer custo, produção e consumo sempre crescentes e lucro. Isso pressupõe, como em toda religião, um sacrifício, ou muitos sacrifícios: devastação da natureza, maximização do individualismo, exclusão e formação da sociedade em classes - entre as quais, a dos subcidadãos.
Como estamos falando aqui da área próxima ao Morro do Leme, voltemos a ela para apreciar como ali se pratica a religião capitalista. Há investimentos com vistas ao lucro, como compra e venda de lotes de terra e a instalação de empresas, como o posto de combustível. Há também sacrifício das áreas verdes e a depredação do Morro do Leme. Ora, mas o que tem isso de errado? Nada! Tudo isso é muito natural! Está no nível consciente e principalmente inconsciente de todos.
Se não há nada de errado, isso explica a aceitação generalizada, a indiferença para com a destruição da natureza, a ausência de pensamento crítico, a falta de curiosidade em vislumbrar formas outras de mundos possíveis, diferentes da que foi desde o início implantada em Oeiras e em tantos outros lugares. Nem a falácia do “desenvolvimento sustentável” é cogitada para mitigar os efeitos dessa religião.
Parece que vivemos numa bolha. Nem a emergência climática que nos atinge é capaz de nos mover. Oeiras sacrifica suas agora escassas áreas verdes, enquanto bate recordes de altas temperaturas nos verões. Destrói as belezas naturais e em seu lugar planta uma cidade cujo emblema de modernidade é um posto de combustível aos pés da padroeira, que, por ironia, chama-se Vitória.
Rogério Newton é escritor


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