Poderia citar vários momentos significativos da 13ª Romaria da Terra e da Água, realizada em Oeiras, sábado e domingo (17 e 18), com o subtítulo Direito dos Povos e Garantia de Vida e Paz . Mas vou mencionar apenas dois: o primeiro, a leitura de parte de um documento assinado por bispos brasileiros, não este ano, que classifica a terra segundo duas destinações totalmente distintas e antagônicas: para o negócio e para o trabalho. De acordo com o referido documento, a terra com o sentido de mercadoria é o agronegócio nas áreas rurais. No Piauí, sobretudo nos cerrados. Ao que parece, o documento não fala, mas, nas cidades, a terra virou mercadoria pela especulação imobiliária. Em Oeiras, a terra-mercadoria tem um nome: loteamentos.
O segundo momento dos mais importantes foi a “parada” que a Caminhada da Romaria fez na Ponte Zacarias de Goes, a mais antiga do Estado, sobre o Riacho Mocha, onde houve ato simbólico emocionante. Águas contidas em uma ancoreta, um pote e uma cabaça, provenientes dos rios Parnaíba, Corrente e Canindé, foram despejadas no leito degradado do riacho, na área da galeria-esgoto de concreto construída pela Prefeitura no final da década de 80. O ator Xico Carbó fez a performance O Riacho Tem Sede. Um estudante, com figurino preto, capuz sobre o rosto e uma motossera nas mãos simbolizava o caráter cruel dos desmatamentos que vitimizam as matas ciliares não só do Mocha, mas de muitos rios piauienses.
É claro que houve muitos instantes fortes. Selecionei esses porque me tocaram mais.
A 13ª Romaria da Terra e da Água representa um olhar sensível da Igreja sobre os problemas sociais, se não da instituição como um todo, de sua parte mais consequente. Historicamente, a guinada foi dada por João XXIII e encontra no atual papa o exemplo maior de “espiritualidade inserida”.
Os temas dos seminários ocorridos com a presença de centenas de pessoas durante a Romaria – terra, água, grandes projetos e impactos socioambientais e migração forçada – revelam a intenção de abordar política, economia e sociedade. Mesmo não deixando de colocar os inevitáveis “dedos nas feridas”, os discursos foram em geral feitos com o tom de calejada prudência. O diálogo com os poderes constituídos e setores conservadores da sociedade é tarefa árdua. A Igreja sabe que é uma interlocutora forte.
Escolhi no início dois momentos fortes para mim. Acrescento outros: as “paradas” em frente à Justiça Eleitoral e ao Hospital Deolindo Couto e o fluxo da multidão descendo do Morro do Leme em direção ao centro histórico, com suas faixas e cantorias. Bonito ver tanta gente reunida em torno de bons propósitos. Não só o riacho tem sede de Justiça.
Rogério Newton


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