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À sombra das fogueiras e das chuteiras imortais. Por; Rogério Newton

A raiz do problema é que o São João em Campina Grande foi transformado em um negócio.

Foto: reprodução

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Estou em Campina Grande (PB), e alguém me falou que o São João não é mais o mesmo porque foi invadido por música “sertaneja” de péssima qualidade. É verdade: cantores, compositores e bandas medíocres ocupam palcos milionários. Isso, porém, é sintoma, não causa.

A raiz do problema é que o São João em Campina Grande foi transformado em um negócio. Políticos e empresários sem escrúpulos se uniram para criar um projeto político-econômico, cujo objetivo é gerar lucros financeiros para empresas e dividendos políticos nos círculos de poder, em cuja dinâmica são cada vez mais fortes as presenças de dinheiro, influências, uso da máquina pública e controle das massas.

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Em Campina Grande, tudo começou no início da década de 1980. Aparentemente, o projeto foi conduzido pelo prefeito da cidade e um grupo restrito de negociantes. Juntos criaram “O Maior São João do Mundo”, evento que se apropriou da manifestação cultural e popular, transformando-a em mercadoria e produto ufano-populista. O prefeito alcançou enorme destaque em todas as mídias, dando impulso à sua carreira política e à de membros da família.

O discurso eufórico, disseminado amplamente, apresentava uma Campina Grande que deixava de ser provinciana para galgar o status de cidade protagonista do maior São João do planeta. Envolvia iniciativas mercadológicas, como a criação do Spazio, não por acaso anunciado como “a maior casa de shows da América Latina”. Para implantar a ideia de que a cidade estava mudando para melhor, a propagandavoltou anos atrás no tempo e se apropriou dacomposição Alô Campina Grande, de Jackson do Pandeiro, reproduzida ao extremo: “Alô, alô, minha Campina Grande / quem te viu e quem te vê / não te conhece mais / Campina Grande tá bonita, tá mudada / muito bem-organizada / cheia de cartaz”.

Logo após a criação do “Maior São João do Mundo”, o grupo político-familiar no poder apropriou-se de outra manifestação popular, criando a Micarina, “carnaval fora de época”. De quebra, criou também o “Encontro da Nova Consciência”, realizado durante anos nos dias de Momo, esvaziando o carnaval na cidade.

Tudo isso faz parte do projeto político e econômico, inicialmente criado com objetivos claros de propiciar a ascensão de um grupo político-familiar específico e, ao mesmo tempo, gerar lucros financeiros. Nesse projeto, o que menos importava – e o que menos importa ainda hoje – é que o São João permanecesse com suas características peculiares, com sua riqueza vital, comunitária e culturalmente complexa. Da década de 1980 até os dias que correm, o projeto se aperfeiçoou, adquirindo feições requintadas de como se corrói por dentro uma manifestação pujante, transmitida de geração a geração, transformando-a numa caricatura grotesca do que havia sido no passado.

O núcleo do “Maior São João do Mundo”, artificialmente criado, continua sendo o Parque do Povo, situado no centro de Campina Grande. O que é o Parque do Povo hoje? Um grande e asséptico mercado, onde pontificam os stands iluminados de grandes empresas: bancos, cervejarias, bets, redes de farmácia, empresas de seguro... O Parque é de todos, menos do povo. Não há ali nada que lembre o São João, a não ser os trios de forró, relegados a cantinhos distantes dos palcos milionários.

Esse São João é uma festa triste. Não há mais brincantes. O que se vê são consumidores, que comem e passeiam como se estivessem em um shopping. Além da trilha musical preponderante, de “sertanejos” et caterva, há uma “moda” constituída de roupas de couro artificial, saias plissadas, chapéus texanos, botas cano-longo... Numa das entradas do Parque do Povo, que há anos não mais faz jus ao nome, há um aviso em letras graúdas, afirmando que todas as pessoas que entram ali automaticamente cedem seus direitos de imagem para os donos da festa.

Esse São João é um produto imposto pela indústria cultural, expressão cunhada por Max Horkheimer, em 1947, fruto da expansão da lógica do capitalismo. Entendendo assim, podemos enumerar-lhe algumas características: a) possui fins estritamente lucrativos, seja econômicos ou políticos; b) padronização ditada pelo mercado, com uso de fórmulas previsíveis e muita propaganda; c) perda da singularidade e características que a tradição construiu ao longo de gerações; e) produto destinado ao consumo rápido e sem reflexão, resultando em alienação;  f) o produto como um todo chega já pronto, construído “de cima para baixo”; g) empobrecimento crítico e estético de elementos como músicas, danças, vestuário e culinária; h) monetização dos discursos oficiais e mercadológicos; i) mal-estar e insatisfação de artistas excluídos; j) desprezo às observações e críticas de artistas e de lideranças culturais.

O São Joãoe a Copa do Mundo apresentam uma aproximação reveladora aqui e agora. São produtos da “sociedade de espetáculo”.Sobre futebol, Milly Lacombe faz uma afirmação por meio da qual pode-se também “ler” o São João:“Quando a gente olha pro futebol da maneira como a CBF olha, que é, assim, exclusivamente um negócio, e esse time precisa apenas ganhar, deixa de usar o futebol como veículo de identidade nacional. Então, a gente em campo não é mais o Brasil, ou é o Brasil institucional, careta, covarde, conservador, racista, oligárquico”.

O São João atual de Campina Grande pertence ao Brasil oficial, caricato e burlesco, como disse antes Machado de Assis. Não é o Brasil ou o Nordeste, quente, brincante, em torno das fogueiras. 

 

*Rogério Newton é escritor

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