O Pica-pau-do-Parnaíba (Celeus obrieni) passou a ser oficialmente a ave símbolo do Piauí. A medida foi sancionada pelo governador Rafael Fonteles e publicada no Diário Oficial do Estado nesta semana. A escolha reconhece a importância ecológica, científica, cultural e turística da espécie e também reforça a necessidade de preservação.
A ave tem uma história marcada pela raridade. Segundo o biólogo e ornitólogo Leonardo Moura Soares, o primeiro registro conhecido ocorreu em 1926, quando um exemplar foi coletado e posteriormente vendido para um museu nos Estados Unidos. Durante décadas, não houve novos registros do animal na natureza.
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“Foi coletado em 1926 por um coletor profissional e vendido para um museu nos Estados Unidos, uma única pele. Então, essa espécie foi descrita através de uma única pele coletada e depositada em um museu. Ele passou 80 anos sem ser registrado, ou seja, foi registrado uma única vez e nunca mais foi registrado na natureza”, explicou o pesquisador.
Somente em 2006, um pesquisador que trabalhava no Tocantins encontrou novamente a espécie. Fotografias foram compartilhadas com outros especialistas e, após análises, os pesquisadores concluíram que se tratava do Celeus obrieni.
Por que o pica-pau ficou décadas sem ser encontrado?
Uma das principais explicações está no habitat bastante específico da espécie. De acordo com Leonardo, a ave exige um ambiente exclusivo para sobreviver.
“Na ciência, a gente precisa identificar qual tipo de hábitat esses bichos vivem. Eles não vivem em qualquer tipo de ambiente. Ele tem um hábitat específico, vive exclusivamente na taboca, que é um tipo parecido com o bambu”, detalhou o ornitólogo.
A identificação desse ambiente foi fundamental para que os pesquisadores conseguissem localizar novamente a ave. Depois da redescoberta, houve registros em outros estados, como Maranhão, Tocantins, Goiás, Mato Grosso e Pará.
No Piauí, a espécie voltou a ser registrada somente em 2020, depois do primeiro registro feito em 1926. O ornitólogo relata que houve buscas em diferentes localidades do estado, incluindo áreas de Nazária e José de Freitas, e posteriormente também foram feitos registros em União e Campo Largo.
Perda do habitat ameaça espécie
Apesar de ter voltado a ser encontrada, o pica-pau-do-Parnaíba continua sob pressão ambiental. Segundo o pesquisador, a principal ameaça é justamente a perda do habitat natural.
A espécie é associada ao Cerrado, bioma que sofre com a expansão de atividades como agricultura e pecuária. Com a retirada da vegetação, o ambiente necessário para a sobrevivência do pica-pau também diminui.
“O que levou essa espécie a uma categoria de ameaça de extinção foi a perda do hábitat. É uma espécie endêmica do Cerrado e o Cerrado está sendo totalmente devastado pelo agronegócio. A agricultura e a pecuária estão devastando e essa espécie está perdendo o seu hábitat natural”, explicou Leonardo.
A espécie é classificada como vulnerável pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), segundo a justificativa do projeto que deu origem à lei. O texto também aponta a oficialização como uma forma de fortalecer políticas de proteção e conscientização sobre a biodiversidade.
Símbolo do Piauí
A escolha do pica-pau também tem relação com a identidade regional. O nome popular da espécie faz referência ao Rio Parnaíba, um dos principais símbolos naturais do estado.
A lei que oficializou a ave como símbolo estadual é de autoria do deputado Severo Eulálio (MDB). O reconhecimento considera a relevância ecológica, cultural, científica e turística do animal e estabelece que a medida também deve contribuir para sua conservação.
Para Leonardo, no entanto, o reconhecimento precisa ir além da criação da lei. O pesquisador chama atenção para a necessidade de garantir proteção efetiva aos locais onde a espécie ocorre.
“A gente tem que ir além, não só no papel. Essa espécie, além de estar ameaçada de extinção, não existe nenhum registro dela em unidades de conservação. Tudo bem, é uma espécie que agora é símbolo do estado do Piauí. Pois agora vamos criar unidades de conservação onde essa espécie ocorra para que a gente possa preservar realmente essa espécie”, cobrou o pesquisador.
Macho e fêmea têm diferenças
Outra curiosidade está na aparência. Machos e fêmeas podem ser diferenciados pela coloração da cabeça.
“A diferença entre a fêmea e o macho é que o macho tem mais vermelho na cabeça. A fêmea não tem esses vermelhos na cabeça e o macho tem mais vermelho”, observou Leonardo.
A espécie integra um conjunto de aves da região que chama a atenção dos pesquisadores justamente pela relação com ambientes específicos e pelos impactos provocados pela perda de vegetação.
Durante a entrevista, Leonardo também destacou outras espécies encontradas no Piauí que enfrentam diferentes níveis de ameaça, seja pela destruição do habitat, pelas queimadas e pelo desmatamento ou pela caça predatória.
Mais que um título
A oficialização do pica-pau-do-Parnaíba como ave símbolo coloca em evidência uma espécie que passou décadas praticamente desconhecida pela ciência e que ainda depende da conservação de seu habitat para sobreviver.
Para o pesquisador, transformar a ave em símbolo do estado deve servir também para aproximar a população da conservação ambiental. O reconhecimento, portanto, pode ajudar a chamar atenção para uma espécie que, apesar de rara, faz parte da biodiversidade do Piauí e de outros estados brasileiros.
A mensagem é especialmente importante diante das ameaças provocadas pela destruição dos ambientes naturais. Como resume Leonardo, a preservação precisa sair do papel e alcançar os locais onde essas aves vivem.
Cidadeverde


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