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Forjado na terra vermelha do Oitis. Por; Carlos Alberto Júnior

Carlos Alberto Júnior. Foto: Arquivo Pessoal

 Carlos Alberto Júnior. Foto: Arquivo Pessoal

Dou graças a Deus, a quem desde os meus antepassados sirvo com uma consciência pura, de que sem cessar faço memória de ti nas minhas orações noite e dia  (Timóteo 1:3)

Peço licença para me apresentar. Sou Carlos Alberto, carrego o nome do meu pai. Pelo lado dele, tenho por avó Teresinha de Jesus, uma negra, nascida em Simplício Mendes, costureira, filha de outra negra, dona Ana. Meu avô biológico era José de Júlio, nascido em Oeiras, filho de Júlio da onça, meu bisavô, que tinha esse apelido peculiar e era vaqueiro. Eles me presentearam com meu pai, um homem pardo, radialista e servidor público, nascido em Oeiras, que foi, em verdade, registrado como filho do seu padrasto, José Martins, um negro, policial militar, que conviveu comigo e se colocou, por direito e por amor, como meu avô de fato, pela típica “adoção à brasileira”.

Pelo lado da minha mãe, tive o prazer de conviver com meus dois bisavós: Vicente e Ana Joaquina. O primeiro foi um carpinteiro e lavrador, branco de olhos verdes. Ela, segundo me consta, descendente de índia, parda, queimada do trabalho na roça. Eles nasceram no interior de Picos, mas vieram se fixar na zona rural de Colônia do Piauí, no povoado Oitis, mais precisamente às margens do açude Mocó. Entre seus filhos, tiveram Raimunda, uma mulher branca de olhos claros, também lavradora, minha avó. Meu avô materno, Francisco, faleceu antes de eu nascer. Eles deram origem à minha mãe, Maria Celma, que também trabalhou na roça, mas, de lavradora, transformou-se, com muita dificuldade, em estudante, universitária, especialista com duas graduações e professora concursada.

Assim como apóstolo Paulo, eu também sirvo a Deus desde os meus antepassados. Essa é a minha descendência, minha ancestralidade, a quem reverencio. Como todo o povo brasileiro, eu tenho origem dessa mistura, carrego, nas minhas veias, essa miscigenação. Mas, sobretudo, carrego com orgulho as minhas raízes dessa gente simples e batalhadora, que há séculos vem enfrentando os desafios do sertão nordestino, “sem dinheiro no bolso, sem parentes importantes e vindo do interior”.

Quis Deus que, de alguma forma, o destino de todos eles tivesse alguma ligação com o meu amado bairro Rosário, em Oeiras. Primeiro reduto negro do Piauí, bairro de gente preta, pobre, humilde, mas lutadora, e que sabe bem o que é resistir aos preconceitos, aos desmandos, à vida dura.

Não, não carregamos sobrenome de destaque, nós somos os Silvas, os Sousas, os Mouras. Sou o primeiro neto dos dois lados da família a obter uma graduação, o primeiro a conseguir um diploma de mestrado e o primeiro a me tornar servidor efetivo por meio de concurso público.

Tive uma infância simples, sempre que possível estava à beira do Açude Mocó, banhando, mesmo sem saber nadar; pescando, mesmo sendo péssimo na pesca; caçando passarinho com baladeira, intento por meio do qual, para sorte da minha consciência de adulto, eu nunca obtive êxito em atingir ave nenhuma.

Na casa de pau a pique dos meus bisavós, não tinha água encanada, bebíamos água de pote que vinha da cacimba ou do poço e banhávamos com água do açude ou do barreiro. Também não tinha energia elétrica, dormíamos à luz das lamparinas, acordando ao som do chocalho das cabras e com o barulho das galinhas. À noite, sob as estrelas e sob o luar do sertão, escutávamos histórias de “visagem”, de caça, de onça.

Minha bisavó, a quem chamávamos carinhosamente de “mãe véia”, levava-me para andar de jumento, para buscar água na cacimba e fazia a comida mais saborosa do mundo inteiro. A lembrança do seu feijão, do cheiro do seu café, da carne de porco assando no fogão a lenha, do seu cuscuz com torresmo, faz a minha criança interior salivar.

Meu bisavô cortava cana para fazer garapa no engenho que ele mesmo construíra. Organizava as “desmanchas” de mandioca, fazia a farinha no forno de barro, que também fora obra sua, e contava várias histórias da sua mocidade. Tinha fama de zangado, mas fazia todas as nossas vontades. Certa vez, minha mãe me contou que, quando era jovem, ele tocava sanfona, informação que foi suficiente para que surgisse em mim esse sonho de levar o seu legado adiante.

Minha avó Raimunda nos levava para a roça da Varjota, para o açude. A noite trazia um copo de leite quente com farinha láctea, uma das minhas primeiras memórias gustativas. Recordo que, uma vez, estava jogando bola com meu primo Ernando, nos lajedos em frente à casa, e arranquei o “tampo” do dedo. Fiquei muito preocupado que minha mãe descobrisse. Minha avó fez um curativo improvisado e me escondeu dela pelo resto do dia. Era nossa protetora, mimava todos os seus netos.

Eu contava os dias para avistar aquela cancela por trás do pé de flamboyant do sertão que ficava na entrada da casa dos meus bisavós. Há poucos dias, avistei novamente aquela paisagem. Era o funeral do meu bisavô, que foi enterrado em frente ao túmulo da minha bisavó. Minha avó Raimunda havia falecido dois anos antes.

Saber que os três se foram, os últimos elos que me ligavam àquele pedaço de chão que me trouxe tanta felicidade, deixa meu peito em destroços. Mas sei que eles estão vivos, não só no plano espiritual, mas também em mim, no meu sangue, na minha carne, em quem eu sou, em quem eu me tornei. Fui forjado na terra vermelha do Oitis, coberta de pinhão roxo, velame e macambira, correndo entre os pés de jenipapo, angicos e catingueiras. Salve a minha ancestralidade, salve os Vicentes, Anas, Raimundas, Franciscos, Marias. Salve o povo humilde do meu sertão piauiense.

 

*Carlos Alberto Júnior é Servidor do Tribunal de Justiça do Piauí, mestre em Direito Econômico

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