Até o início da década de 1980, o Morro do Leme, em Oeiras, foi um lugar bastante visitado, sem que houvesse escadas para se subir nele. O acesso era feito por trilhas abertas por pessoas anônimas ao longo de gerações, podemos dizer, desde quando a cidade se tornou cidade. Quem frequentava o Morro do Leme o fazia por gostar da ambiência e da beleza natural do lugar, que se transformou em um símbolo telúrico querido por todos.
Mas isso é coisa do passado. O Morro do Leme é hoje um lugar deformado pelas construções que se fizeram nele e no seu entorno. A beleza e o mistério, que a natureza construiu em tempos imemoriais, foram e estão sendo solapados, sem que nenhuma medida ou atitude seja tomada pelos poderes constituídos ou por pessoas comuns.
+SIGA O FOLHADEOEIRAS NO FACEBOOK
+SIGA O FOLHADEOEIRAS NO INSTAGRAM
+SIGA O FOLHADEOEIRAS NO YOUTUBE
Ao contrário, vigora não só em relação ao Morro do Leme, mas em todas as belezas naturais de Oeiras, a ordem inscrita nas consciências, segundo a qual “é natural” destruir a natureza, mesmo que se coloque em seu lugar obras destituídas de bom senso, beleza e graça. É uma lógica absurda, difícil de se aceitar, mas que encontra adeptos por toda parte, inclusive nos círculos de poder da política familiar-partidária.
De nada vale a proteção legal inserida no art. 159, da Lei Orgânica do Município de Oeiras, de acordo com o qual os morros da cidade e o Riacho Mocha são áreas prioritárias de conservação. A norma legal foi incluída na lei por causa da discussão pública que antecedeu sua promulgação. Que importa a legitimidade e o bem-querer que o povo devota (ou devotava) ao Morro do Leme e a outras belezas naturais de Oeiras?
Apesar da apatia cidadã que se alastra em Oeiras, é possível identificar vozes que pregaram e pregam no deserto hostil da cidade em defesa do Morro do Leme e de outros sítios. Todos os prefeitos, sem exceção, pouquíssimo ou nada fizeram no quesito da conservação e do uso adequado. As omissões de quem tem o dever de agir são responsáveis históricas e diretas da situação em que o Morro do Leme se encontra hoje, um morro sufocado na sua agonia, uma morte que dói mais. Por essa sentença todos somos responsáveis, mas os que detêm poder político e econômico são mais.
*Rogério Newton é escritor


Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião desta página, se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.