O caso Cláudia
Por; Carlos Rubem
Quando da criação do Movimento Brasileiro de Educação – MOBRAL (Lei 5379 de 15.12.1967), projeto da Ditadura Militar (1964/1985), que “propunha a alfabetização funcional de jovens e adultos, que abandonaram a escola, visando conduzir a pessoa a leitura, escrita e cálculo como meio de integrá-la a sua comunidade, permitindo melhores condições de vida na sociedade”, em Oeiras, apresentou-se como voluntário e foi aclamado para presidi-lo, o Professor Possidônio Queiroz.
Em 1971, o então prefeito Juarez Tapety, atendendo reivindicação do seu correligionário José Barbosa de Miranda, conhecido por Zé de Elói, mandou um bilhete ao “Bruxo Velho de Oeiras” lhe solicitando a nomeação de uma determinada pessoa para cargo de professora do MOBRAL, no povoado Briona.
Os dias se passaram e a nomeação pretendida não se efetivou. O prefeito achou por bem pedir uma justificativa a autodidata Possi, assim carinhosamente chamado por todos.
Com aquela sua mansidão e sinceridade características, disse ao alcaide que a sua indicada, após ter se submetido a um teste seletivo, tinha “mais embocadura para ser aluna”. E o assunto ficou encerrado!
Dia desses a imprensa local noticiou a nomeação da Sra. Francisca Cláudia Barbosa da Silva, por parte do Governo do Estado, para assumir o cargo de Diretora do Museu de Arte Sacra de Oeiras, indicação partidária dos próceres situacionistas da política paroquiana.
Ora, Museu de Arte Sacra de Oeiras foi inaugurado no dia 15 de agosto de 1983, pelo Governador Hugo Napoleão, ao ensejo das comemorações do 250° da edificação da nossa vetusta Igreja de N. Sra. da Vitória, numa marcante solenidade muito concorrida. Aliás, o Bispo Primaz do Brasil, Dom Avelar Brandão Vilela, de Salvador, se fez presente neste portentoso evento.
Por injunção do Secretário de Cultura da época, Deputado Jesualdo Cavalcante, no início de seu funcionamento, o MAS foi dirigido por museólogas de carreira, gente do Rio de Janeiro, que muito bem souberam disponibilizar seu acervo patrimonial e fazer escola.
Ao longo de sua existência, o MAS tem recebido inúmeros visitantes, inclusive do ilustre escritor Ariano Suassuna, em 2004, quando do 1º Festival de Cultura de nossa cidade. Constantemente, estudantes locais e de outras urbes aqui acorrem para conhecer a linguagem educativa que o mesmo encerra. Enfim, um local de referência da nossa formação religiosa e social.
No encerramento das festividades dos 300 anos da Emancipação Política da nossa comuna, em dezembro de 2017, sob os auspícios da Secretaria Estadual de Cultura - leia-se, Dep. Fábio Novo - o MAS passou por uma repaginação imagética, o que nos encheu de orgulho.
Uma Casa de Cultura deste jaez só atinge sua finalidade se houver uma direção engajada, gestão proativa, por óbvio.
Sem nenhum demérito pessoal, a indicação da Sra. Francisca Cláudia, tida e havida como uma semianalfabeta – fato notório – não possui afinidade para assumir tão significativo múnus público, totalmente alheia à política museológica.
Deste modo, causou perplexidade em vários setores comunitários, na imprensa local e santa reação por parte da Diocese de Oeiras que, há uma semana, mandou travar as portas daquela Casa de Memória.
Ressalte-se que, com o impasse instalado nesta área tão sensível e cara à nossa identidade cultural, a edição da 13ª Primavera dos Museus, que se realiza, nesta semana, em todo território nacional, no âmbito do MAS está comprometida, infelizmente.
Ainda bem que o nosso conterrâneo Wellington Dias, Governador do Piauí, com toda sua diplomacia, está determinado na correção do seu ato administrativo.
Que assim seja!...
*Carlos Rubem é promotor de Justiça aposentado em Oeiras


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